Janja: até onde vai o poder da ‘primeira-ministra’ do País?

Presidente Lula leva em consideração opinião de Janja em várias decisões de governo (Crédito: Buda Mendes/Getty Images South America/Getty Images/AFP)
Por Eduardo Marini, Vasconcelo Quadros e Maria Ligia Pagenotto
RESUMO
● Mais do que nunca, Rosângela Lula da Silva, a Janja, fala alto e forte, dá ordens e influencia nas decisões e escolhas de figuras chave do terceiro mandato do marido Lula
● Janja tem na mitológica Evita Perón, primeira-dama da Argentina na presidência de Juan Domingo Perón, uma referência de mulher
● Integrantes do governo e do PT temem ficar mal com ela e a veem como eminência parda
● Até onde irá o protagonismo da primeira-dama (título que, por sinal, ela odeia)?
Passada quase metade do terceiro mandato do presidente Lula, o leva e traz do Planalto, os aliados, a oposição e os brasileiros não conseguem ficar indiferentes à socióloga paranaense Rosângela Lula da Silva, 58 anos, a primeira-dama do País — rótulo que, por sinal, ela odeia. Casada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde 18 de maio de 2022, sua voz soa encorpada e forte aos ouvidos do marido desde antes do início terceiro mandato. É próxima de Nísia Andrade, ministra da Saúde, que a condecorou por participação em campanhas. Foi decisiva nas escolhas da cantora e compositora Margareth Menezes para o Ministério da Cultura, da professora e jornalista Anielle Franco, irmã da socióloga Marielle Franco, assassinada em 2018, para a pasta da Igualdade Racial, e da amiga Maria Helena Guazeri para a secretaria-executiva no Ministério das Mulheres. E também no veto do carioca Pedro Paulo (PSD) para o Turismo, motivada por uma acusação capaz de lhe causar urticária: violência doméstica contra a ex-mulher. Governo operante, segue resoluta na posição de eminência parda com a conveniência da divisão do mesmo teto. Por interesses distintos, aliados e adversários começam a se perguntar: até onde vai o poder de Janja?
Demissão
● Entre outros encaminhamentos, fortaleceu, como vingança que se come fria e pelas bordas do prato, a decisão do presidente de demitir Silvio Almeida do Ministério dos Direitos Humanos, em setembro último, por suspeita de assédio sexual contra a colega Anielle.
● Durante a recente reunião do G20 no Rio, microfone à mão, disparou um “fuck you (vá se f…)” para ninguém menos do que Elon Musk, o maior bilionário do planeta.
● Influencia — e incomoda — pesos pesados do Executivo e representa com desenvoltura o Brasil em viagens oficiais.
● Vaidosa, extremamente à vontade diante dos holofotes, não faz a mais remota questão de esconder seu peso na gestão do País.
● Nos bastidores do poder, apelidaram-na de “primeira-ministra” do governo “Lula 3 Janja 1”. Tudo, bem ao feitio de Brasília, muito longe dela e, mais ainda, do companheiro ilustre.
Dentro e fora da política, mulheres com pensamento de oposição, sobretudo bolsonaristas, não perdem a oportunidade de qualificar Janja como oportunista, uma alpinista social que se casou com uma personalidade à beira dos 80 anos em busca de fama e luzes, e também com adjetivos ofensivos de cunho sexual.
Não é raro ser vista por antagonistas e mesmo partidários como mulher que não se preserva. De forma velada, sobretudo diante do temor de ficar mal com o poderoso casal, lideranças do PT revelam desconforto a desenvoltura da primeira-dama.
Após o episódio com Musk, petistas no governo pensaram em escolher alguém próximo e admirado por ela para “dar um toque”. Por medo, faltou candidato. O raciocínio era o mesmo: me queimo com ela na hora e, logo depois, com Lula. “O presidente costuma ouvi-la mais do que muitos ministros”, admitiu a ISTOÉ um influente deputado federal petista, que pediu anonimato.

Militante petista de almanaque, Janja apaixonou-se antes pelo líder do que pelo homem Lula. Experiente na esgrima política, fala melhor por gestos. A foto em que abraça e dá um beijo na testa de Anielle foi a imagem que selou o destino de Almeida. Ela passou a ignorá-lo desde que ele, numa desastrada decisão um ano antes, demitiu o então secretário nacional dos direitos da criança e do adolescente Ariel Alves, que se tornara amigo da primeira dama desde a campanha e a recebera no ministério numa visita de improviso que não constou na agenda de Almeida.
Empurrão
Segundo fontes do ministério, foi uma cortesia de Janja para prestigiar o amigo, sem imaginar que pudesse gerar consequências desagradáveis. Fiel à fama de enciumado, o ex-ministro acusou o subordinado de passar por cima dele e o perseguiu até decidir pela exoneração. Janja relatou o caso ao marido e, sem forçar a barra pela demissão, usou a paciência como arma.
Sabia que Almeida não tinha apoio de boa parte dos movimentos negros e de direitos humanos, mas não quis se aproveitar disso, embora tenha entendido o gesto como um desafio desnecessário. Quando a denúncia de assédio ganhou o noticiário e a situação do ministro tornou-se insustentável, Janja deu o empurrãozinho de ponta de dedos, na divisa do abismo, postando nas redes a foto com Anielle e viajando em seguida para o exterior, deixando nas mãos do marido a única decisão que um governante poderia tomar: uma alternativa entre pedir demissão e ser demitido. Almeida não quis assumir nenhuma delas. Lula optou pela que estava ao seu comando. Janja livrou Lula de um desgaste maior ao governo.

Com o bilionário Elon Musk, os gestos e a fala improvisada infelizes não eram para passar de uma brincadeira, mas com Janja virou ofensa e alimentaram o noticiário. Lula havia reclamado da arrogância do bilionário, que se recusara a cumprir decisão do STF e resolvera enfrentar uma guerra pelas redes com ataques ao ministro do STF Alexandre de Moraes, fincando o pé pela manutenção dos perfis que semeavam ódio e mentiras pelo X. O presidente achava que a postura do bilionário era um desafio à soberania do País e se referia a ele, nos bastidores, com palavrões, como é de seu estilo.

Ataque contra Musk
Janja não programou, mas, ao se sentir desconfortável com o barulho que parecia a buzina de um navio nas proximidades do cais, no Rio, onde discursava justamente sobre a necessidade de combate à desinformação, soltou frases que muita gente da esquerda gostaria de ter dito, menos ela: “Acho que é o Elon Musk. Não tenho medo de você, inclusive: fuck you, Elon Musk”.
Longe de qualquer liturgia, a fala levou o próprio presidente a dar um puxão de orelhas indireto na esposa, mais tarde, no mesmo evento, ao afirmar que a luta contra as fake news é uma campanha “em que a gente não tem que ofender ninguém”. A resposta do dono do X, no mesmo X, viria com uma frase lacônica: “Eles vão perder a eleição”.

No dia 8 de janeiro, logo pela manhã, o presidente, Janja e vários ministros viajaram a Araraquara (SP) para prestar solidariedade e colocar os órgãos federais em auxílio à crise provocada pelas enchentes que castigavam a população. O clima da visita foi quebrado com a notícia, bombardeada por todos os canais, dos ataques bolsonaristas aos prédios do Congresso, STF e Palácio do Planalto. A violência das invasões deixou o governo atordoado pelas imagens e a fartura de sugestões, entre elas a decretação de uma medida de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para controlar os distúrbios, o que implicaria em entregar as operações para o Exército.
Mal sabia o presidente que a GLO era tudo o que queriam os golpistas que há mais de dois meses tramavam a anulação do pleito eleitoral para manter Jair Bolsonaro no governo. Nos momentos em que o governo discutia o que fazer e alguém falou em GLO, segundo relataria mais tarde o prefeito do município, Edinho Silva, foi Janja quem, imediatamente e em tom grave, afirmou: “GLO jamais”.
Era a voz da militante do PT, que enxergara os riscos em dar uma ferramenta potente aos mesmos militares que permitiram a invasão e não moveram um dedo para tirar de frente dos quartéis manifestantes hostis à democracia que só pediam o golpe.
Lula nunca contrariou essa versão. Se pensava o mesmo, nada falou. A Operação Contragolpe da PF confirmaria que Mário Fernandes, único general do Exército preso por tentativa de golpe na história do País, orquestrara a invasão para forçar uma “ação disruptiva que desencadeasse uma reação em cadeia, levando as Forças Armadas a aderirem ao intento golpista, consumando a ruptura do Estado Democrático de Direito”. Janja estava certíssima. Até então ninguém no entorno de Lula havia notado que, nos 68 dias anteriores, o País esteve à beira do abismo.

Janja considera Evita Perón, primeira-dama da Argentina entre 1946 e 1952, uma referência de mulher (leia texto abaixo).
Marcelo Vitorino, professor de marketing político da ESPM, afirma que Janja age dentro da lógica de um governo alinhado com ideias progressistas — assim como Michele Bolsonaro cumpria o papel adequado para o marido conservador. “Nenhuma das duas deveria espantar com suas atitudes. Acredito que Lula use o estilo de Janja para compor sua imagem de progressista”.
No seu entender, ela age perfeitamente em sintonia com a ideologia do governo Lula. E credita-lhe algumas mudanças do presidente ao longo dos anos, como a revisão de seus posicionamentos machistas, entre outros. “O presidente sabe usar isso a seu favor. Terceiriza a Janja algumas questões polêmicas que desagradam e desgastam. Faz parte de um jogo que ele mesmo alimenta.”
Por tudo o que se viu, Janja continuará a “compor a imagem progressista” do marido, com toda a notoriedade, holofotes e luzes possíveis, sem jamais ser “demitida”. Para ele, é conveniência pura. Para ela, uma delícia.

MODELO EVITA PERÓN
Janja considera a mitológica atriz e política argentina referência de mulher. São muitas as semelhanças entre as duas
Janja considera a mitológica argentina Eva María Duarte, a Eva ou Evita Perón, primeira-dama da Argentina durante a presidência de Juan Domingo Perón, entre 1946 e 1952, uma referência de mulher.
● Por vontade própria, sem exigência formal, depositou flores no túmulo da atriz e política no principal cemitério de Buenos Aires.
● O fato de Evita ter sido uma mulher forte, midiática, à vontade com o interesse da mídia, reverenciada pelo povo e companheira de um mito de popularidade incorpora à escolha elementos quase psicanalíticos.
● Semelhanças, aqui, estão longe de serem meras coincidências. As duas costumam ser comparadas em reportagens.
Evita é uma das personalidades argentinas mais conhecidas no mundo. Filha de família pobre, tornou-se um dos grandes símbolos do peronismo, projeto político desenvolvido pelo marido a partir dos anos 1940 e que ainda atrai milhões de seguidores. Teve papel decisivo na aprovação do voto feminino no país. Atuou em sintonia e com o apoio dos sindicatos. Morreu em 1952, aos 33 anos, vítima de câncer no colo do útero. Foi vivida pela cantora Madonna em Evita, filme dirigido por Alan Parker, com roteiro dividido com Oliver Stone.
