Responsabilidade ao volante

Laira Vieira: "(...) a verdadeira grandeza humana reside na capacidade de assumir a responsabilidade por nossas decisões e erros"
Por Laira Vieira
Em um mundo saturado de distrações incessantes, Locke (2013) destaca- se pela narrativa simples, confiando na habilidade do ator ao invés de elaborados efeitos especiais. Dirigido por Steven Knight (Calmaria, Senhores do Crime), o filme explora a moralidade, responsabilidade e as escolhas que moldam nossa existência.
A trama pode parecer simples, mas é complexa, e acompanha Ivan Locke, um engenheiro interpretado por Tom Hardy (Venom, A Origem), em uma jornada noturna que ocorre inteiramente dentro de seu carro — é uma grande responsabilidade, que Hardy tira de letra. O enredo se desenrola em tempo real, enquanto Locke, um homem bem-sucedido e aparentemente equilibrado, abandona seu trabalho durante a véspera de uma grande obra para lidar com uma crise pessoal: sua ex amante está prestes a dar à luz. Se ele decidir estar presente no nascimento, ele coloca em risco tanto sua carreira quanto sua família, provocando uma série de dilemas éticos e emocionais.
A obra utiliza um cenário contido para explorar temas universais, o isolamento dentro do carro reflete seu estado emocional e mental. As conversas telefônicas que ele mantém ao longo da viagem – com sua esposa, amante, colegas, e filho revelam aspectos cruciais de sua vida e identidade. É abordada a responsabilidade, mostrando como uma única decisão pode reverberar em múltiplos aspectos da vida de não só uma pessoa.
Locke deve escolher entre manter sua estabilidade ou seguir seu instinto de estar presente no parto. Esse dilema
o força a enfrentar as consequências de suas escolhas em tempo real, destacando questões morais e de responsabilidade, cada vez mais relevantes em uma sociedade que frequentemente molda nossas decisões a partir de pressões externas — pois a verdadeira grandeza humana reside na capacidade de assumir a responsabilidade por nossas decisões e erros.
A narrativa evoca o existencialismo de Jean-Paul Sartre: “O homem está condenado a ser livre; uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo o que faz”. A liberdade de escolha do personagem é seu fardo e sua redenção. Ao enfrentar as consequências de suas decisões, ele personifica a essência da condição humana, a necessidade de lidar com as próprias escolhas e moldar o próprio destino.
A película oferece uma crítica à sociedade contemporânea, onde decisões são frequentemente adiadas ou evitadas em prol de soluções mais fáceis. E nos lembra da importância de encarar as consequências de nossas ações com coragem e integridade. Locke não luta apenas contra desafios externos, mas também contra seus medos e dúvidas. Sua jornada é um espelho da luta interna que todos enfrentamos — a busca por significado e propósito em meio ao caos da vida.