As duas cirurgias de Lula podem minar seu futuro político? Especialistas debatem
Tratamento no crânio do presidente reacende um sério debate: até que ponto ele, que está com 79 anos, terá 81 em 2026 e 85 em 2030, e que já tratou câncer na faringe e outros problemas de saúde, estará apto para um segundo mandato ou mesmo a conclusão do atual?

Junta médica e especialistas ouvidos por ISTOÉ afirmam que Lula irá se recuperar facilmente (Crédito: Andressa Anholete; foto editoria: Buda Mendes/Getty Images South America/Getty Images/AFP)
Por Eduardo Marini
Os veículos de comunicação e os mais maduros não deixam o País esquecer dos últimos dias de sofrimento e lenta agonia de Tancredo Neves, presidente eleito pelo Colégio Eleitoral após 21 anos de ditadura, até a morte, por síndrome da resposta inflamatória sistêmica provocada por diverticulite, em 21 de abril de 1985, Dia de Tiradentes (leia abaixo). Por tudo isso, o brasileiro aprendeu a desconfiar de boletim médico quando o paciente é uma grande figura política. O cenário se repete agora, após duas cirurgias a que foi submetido Luiz Inácio Lula da Silva para corrigir o sangramento e um hematoma na parte superior direita do cérebro. Elas foram realizadas na madrugada de terça 10 e na manhã de quinta 12, a primeira 53 dias após o presidente bater fortemente com a parte posterior da cabeça no chão de um banheiro do Palácio Alvorada.
Em um País dividido politicamente, duas perguntas tomaram conta das conversas e certamente irão sobreviver, no mínimo, pelos próximos dois anos.
● A primeira: o que está acontecendo com o presidente?
● A segunda: para além de acusações de etarismo, até que ponto um senhor de 79 anos, que terá 81 em 2026 e 85 em 2030, tratou um câncer na faringe e teve vários outros problemas de saúde, estará apto, em termos físicos, cognitivos e psicológicos, para exercer um segundo mandato ou mesmo concluir o atual?

A preocupação é legítima — e o País tem a missão de conduzir debates sobre a saúde e a idade avançada do presidente com informações médicas, ciência, maturidade e responsabilidade. E ainda, e se possível, sem partidarismos e atitudes grotescas frutos de divisões ideológicas baratas.
Mesmo porque, como se comprovou recentemente na insana trama golpista, uma quantidade razoável de brasileiros não esconde que gostaria de ver o presidente longe do poder a qualquer custo, até mesmo o da vida dele e de quem quer que seja.
A saúde do presidente da República é, sem sombra de dúvida, questão nacional. Meses atrás, uma discussão séria do tipo culminou com a desistência do democrata Joe Biden de tentar a reeleição, em plena campanha, após uma série de lapsos de memórias, declarações incompreensíveis, gaguejos e outras demonstrações de abalo em aparições públicas e no debate com o republicano Donald Trump.

Pancada forte
● No último dia 19 de outubro, Lula deu uma pancada forte numa quina de chão do banheiro masculino principal do Palácio da Alvorada, residência oficial da presidência da República em Brasília.
● Estava sentado em um banquinho cortando e lixando as unhas do pé.
● Ao tentar se levantar para guardar o estojo, o banquinho se mexeu bruscamente no chão de mármore escorregadio.
● Ele caiu de costas e teve um ferimento na parte posterior da cabeça.
● A quantidade de sangue impressionou o presidente, que caminhou a uma sala ao lado e ligou para os seguranças, os primeiros a socorrê-lo.
“Achei que tinha realmente quebrado o casco”, confessou dias depois, ainda assustado. Os exames de imagem feitos logo após a queda de outubro não mostraram outros comprometimentos. O ferimento no “pé” da cabeça foi costurado com cinco pontos e Lula voltou à ativa. Mas, nos 53 dias entre a queda e a madrugada de terça-feira 10, o choque gerou dois sangramentos que provocaram hematomas numa membrana do cérebro. O menor foi absorvido, mas o maior permaneceu na parte frontal direita do crânio.
“A embolização é um procedimento comum dentro de um quadro como o do presidente.”
Renato Anghinah, professor livre-docente em neurologia da USP
Oportuno entender porque os hematomas se formaram.
● Membranas separam o cérebro dos ossos do crânio e são ligadas à massa cerebral por pequenas artérias.
● Com a idade, o volume do cérebro diminui, aumentando o espaço entre ele, as membranas e o crânio.
● A sacudida brusca gerada por um choque como o ocorrido com o presidente faz o cérebro balançar dentro do crânio para frente e para trás, esticando e muitas vezes rompendo essas artérias em pontos diferentes de onde ocorreu a pancada.
● Isso pode acontecer também, por exemplo, no sacolejo de um acidente de automóvel, sobretudo se a pessoa não estiver usando cinto de segurança.
● Os rompimentos causam vazamento de sangue, que formam os hematomas.

Em situações mais graves, se o sangue continuar a vazar por muito tempo sem ser drenado, o acúmulo poderá criar pressão na massa cerebral e prejudicar funções físicas, motoras, cognitivas e intelectuais controladas pelo cérebro.
O médico pessoal de Lula, Roberto Kalil Filho, do Hospital Sírio-Libanês, a equipe responsável pelas duas cirurgias e todos os especialistas consultados por ISTOÉ afirmam, no entanto, que não é o caso do presidente.
“Em nenhum momento ele teve qualquer perda das capacidades cognitiva, intelectual e motora. Esteve o tempo todo consciente, conversando, se alimentando e andando. O sangue acumulado no hematoma foi completamente drenado na primeira cirurgia antes que pudesse produzir qualquer efeito importante”, afirma Kalil Filho. “O segundo procedimento foi igualmente um sucesso. Demorou menos de uma hora, com anestesia local, e ele logo voltou a conversar, a andar e a comer. Está ótimo, em pleno domínio de todas as suas ações e atividades físicas e cerebrais.”
O presidente do Instituto Lula, Paulo Okamoto, foi um dos poucos amigos autorizados a entrar no Sírio. Visitas estão restritas a familiares.

Na noite de sexta-feira 6, quando começou a reclamar de dores de cabeça, o presidente acompanhou a primeira-dama Janja da Silva, em São Paulo, numa homenagem prestada a ela por advogados petistas do grupo Prerrogativas. Parecia nitidamente abatido. As dores apertaram na segunda-feira 9.
Os médicos aconselharam Lula a interromper uma reunião com ministros e o levaram à unidade do Sírio-Libanês em Brasília. Lá, uma ressonância magnética e uma tomografia computadorizada revelaram o hematoma. A forte dor de cabeça, que Lula desconfiava ser efeito colateral de uma forte gripe ou virose, vinha a rigor da irritação provocada pelo sangue nas membranas cerebrais.
Na terça-feira 10, Lula foi submetido, no Sírio de São Paulo, a uma cirurgia chamada trepanação craniana, procedimento considerado comum na neurologia.
● Dois pequenos orifícios com diâmetro de um centímetro e meio, distantes 12 centímetros um do outro, foram feitos com broca cirúrgica na parte posterior baixa da cabeça.
● O cabelo da região precisou ser raspado.
● Uma cateter foi introduzido em um buraco e uma câmera, no outro.
● Em três horas, o hematoma foi completamente aspirado e um dreno instalado para dar vazão às secreções até elas cessarem.
● A cicatrização dos orifícios ocorre de forma espontânea ou com auxílio de cola ou cimento ósseo.

O segundo procedimento, a embolização da artéria meníngea média, realizado na manhã de quinta-feira 12, é minimamente invasivo pela grande maioria dos especialistas.
● Funciona como um complemento da cirurgia anterior, de trepanação.
● O paciente recebe anestesia geral.
● Em seguida, um cateter de menos de um milímetro de diâmetro, introduzido na maior parte dos casos em uma artéria da virilha, chega até a artéria meníngea média guiado com ajuda de imagens de raios-X.
● O cirurgião “entope” e bloqueia permanentemente a artéria com um material químico de consistência gelatinosa, impedindo a saída do sangue que vinha alimentando o hematoma.
“É um procedimento complementar e preventivo”, explica o médico e pesquisador Luís Fernando Correia. “Com ele, a chance de ocorrer novos hematomas são insignificantes, entre um e 5% no máximo”, calcula. “As probabilidades são quase desprezíveis”, reforça Kalil Filho.
Sem sequelas
“A embolização é comum dentro de um quadro como o do presidente”, afirma a ISTOÉ Renato Anghinah, professor livre-docente em neurologia da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, trata-se de um procedimento (e não cirurgia, pois é de baixa complexidade) rotineiro na evolução do caso e relativamente simples de ser realizado. “Cumprida a missão, não deixa sequelas nem precisará ser repetido.”
Anghinah revela que existem diversas técnicas para a realização da embolização. Por não ter acesso ao caso, não sabe dizer qual foi a realizada no presidente. “Mas vale ressaltar que a meníngea continuará sendo irrigada por outras artérias. Isso precisa ficar claro, pois o sistema vascular cria outros vasos colaterais quando há diminuição de fluxo em determinada região, a fim de suprir a irrigação.”

O sangramento detectado em Lula estava entre a massa cerebral e a meninge, embaixo da membrana chamada dura máter. “Não ocorreu dentro do cérebro. É como se fosse em uma das camadas de proteção do órgão”, disse o especialista.
Hugo Sterman, neurocirurgião do Hospital São Luiz Itaim e Vila Nova Star, da Rede D’Or, e da Faculdade de Medicina da USP, destaca um estudo recente que demonstra a associação entre cirurgia e embolização como redutora da taxa de recorrência do hematoma. “Considero um procedimento eficiente mas invasivo. Possui riscos, incluindo lesão de artérias, hemorragia e até AVC. Isso explica porque a equipe médica não realizou a embolização junto com a cirurgia anterior, e sim de forma complementar. Foi avaliada depois a necessidade. Dependendo da efetividade do tratamento anterior, ela pode ser repetida.”
Espera-se que não. De qualquer forma, as discussões futuras sobre as condições de saúde do presidente serão pertinentes. Se fosse um civil, elas seriam de interesse exclusivo dos seus familiares e dele próprio. Mas Lula é presidente da República — e, por isso, elas afetam a vida de 212 milhões de brasileiros. Como se viu nos EUA, um chefe de governo — qualquer um — e seu entorno precisam entender essa demanda da sociedade com maturidade, desprendimento e, acima de tudo, espírito público.
AS LIÇÕES DO CASO TANCREDO NEVES
Agonia do presidente eleito após 21 anos de ditadura ensinou políticos a não negligenciar problemas de saúde
O episódio envolvendo a longa agonia de Tancredo Neves só tem paralelo com a tragédia e morte de Rodrigues Alves que, assim como o líder mineiro, adoeceu depois da eleição e morreu sem poder tomar posse como presidente da República, em 1919.
● Em 1985, último ano da ditadura militar de mais de duas décadas, depois de vencer no Colégio Eleitoral o ex-governador Paulo Maluf, Tancredo encarnava os desejos de redemocratização.
● Passou mal na véspera, foi internado no Hospital de Base, em Brasília, e se submeteu à primeira cirurgia no dia 14 de março, véspera da posse, para retirar um divertículo de Merkel.
● Transferido para o Incor, em São Paulo, passaria por outras seis operações e uma infinidade de procedimentos radicais, até que uma infecção generalizada, combinada com inflamação em órgãos vitais, o matou no dia 21 de abril, 39 dias depois de uma rotina de sofrimentos que a população acompanhou no dia a dia.
Com a morte de Tancredo, que aguentou em segredo o sofrimento para, antes, tomar posse, os políticos aprenderam a lidar com transparência e não negligenciar problemas de saúde.
Colaboraram Vasconcelo Quadros, Ludmila Azevedo e Maria Lígia Pagenotto