Coluna

Um ano de Javier Milei, o ‘experimento’

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Eduardo Marini: "Os gastos públicos foram reduzidos em um terço, o número de ministérios à metade e a inflação média mensal de 13% para 3%" (Crédito: Divulgação)

Por Eduardo Marini

A Argentina atraiu a atenção dos principais analistas políticos e órgãos de imprensa do mundo nos últimos dias. O motivo é relevante: o governo do economista anarcocapitalista Javier Gerardo Milei, um extremista de direita de fazer inveja a qualquer Donald Trump, fará o primeiro aniversário na terça-feira 10. Novo na política, 53 anos, é conhecido por atitudes, declarações e hábitos estranhos. Diz não pentear o cabelo desde os 13 anos. Solteiro, tem cinco cães da raça mastiff inglês, seus “filhos de quatro patas”. Garante “pedir conselhos por telepatia” a outro, morto em 2017.

Ele venceu o peronismo com uma motosserra nas mãos e promessas como dolarizar a economia, “secar” a máquina pública, privatizar educação e saúde, dar um “pé na bunda” dos políticos e “dinamitar” o banco central. Vem cumprindo quase todas. Mas que legado deixará o “experimento extraordinário Milei”, como definiu a revista britânica The Economist na reportagem de capa, a versão mais radical de liberalismo econômico desde os anos Margareth Thatcher no Reino Unido. “Meu desprezo pelo Estado é infinito”, resumiu na entrevista.

Milei recebeu uma Argentina abalada há décadas por clientelismo, excesso de funcionários públicos, controles artificiais de preços e sucessivas impressões de moeda para tapar buracos de caixa. Desabaram sobre os argentinos controles artificiais de preços e taxas variadas de câmbio. Como lembra The Economist, a Argentina “é o único país na história econômica moderna a ter caído do status de mundo rico de volta para a faixa de renda média”. Os argentinos esperam que Milei dê um cavalo de pau nesta trajetória. Alguns resultados dos primeiros são positivos. Os gastos públicos foram reduzidos em um terço, o número de ministérios à metade e a inflação média mensal de 13% para 3%. O risco atual de inadimplência do país é metade do existente há quatro anos.

Mas o outro lado da moeda preocupa. O percentual de pessoas abaixo da linha de pobreza, com até 6,85 dólares diários (R$ 41) para viver, saltou de 40% em 2023 para 53%. O índice de inflação parou de subir, mas com os preços estavam no pico. Os de gases, combustíveis e energia, agora sem subsídios, são exemplos. Paixão nacional, a carne teve o consumo (o da Argentina é o maior per capita do mundo) reduzido. Milei admitiu que seu projeto “iria antes piorar para depois melhorar”. A primeira parte está posta. Diante de sua resistência feroz a gastos ou investimentos em programas sociais e de um país com mais da metade de pobres, o medo é o de que, ao fim e ao cabo, a empolgação dos ricos e remediados argentinos continue a ser mantida — e com ênfase ainda maior — às custas do sofrimento do andar de baixo.