Filme coloca homens e mulheres em papéis trocados para fazer pensar
Novo filme da Anna Muylaert propõe inversão para provocar reflexão — tendência que veio para ficar em diversas manifestações das artes

Apostando em várias personalidades, personagens apresentam diversas contradições (Crédito: Divulgação)
Por Ludmila Azevedo
Uma sede campestre com requintes de excentricidades como, por exemplo, a criação de onças pelo prazer de ver a estampa do animal fora de seu habitat. Esse é o cenário onde se desenrola o novo longa-metragem de Anna Muylaert, em cartaz nos cinemas. O Clube das Mulheres de Negócios mistura suspense e comédia, com elementos bastante característicos do humor que marca a trajetória da diretora e roteirista.
Presidido por Cesárea (Cristina Pereira), o clube conta com sócias que incorporam os clichês de alguns super ricos e emergentes:
● a tradicional (Irene Ravache),
● a líder religiosa (Shirley Cruz),
● a celebridade do funk (Polly Marinho),
● a pecuarista (Grace Gianoukas),
● a desbocada que almeja virar presidente (Katiuscia Canoro),
● a advogada (Helena Albergaria)
● e a insaciável (Itala Nandi).
Sob a organização da fiel escudeira Brasília (Louise Cardoso), elas irão receber a visita de um fotógrafo (Luís Miranda) e de um jornalista (Rafael Vitti) para uma reportagem que vai tomar caminhos absurdos. É neste contexto que a diretora conduz uma inversão de gênero na qual o espectador reflete sobre estruturas socialmente construídas e as distintas formas de opressão.
“Claramente, as mulheres estão representando os homens e vice-versa. Eu parto do ponto de que é uma inversão, que a gente está vendo os homens nos corpos femininos. Essa é a provocação. A ideia foi ao virar o jogo e, realmente, ver essas coisas que a gente está tão acostumado sob outra perspectiva. Está tudo tão normalizado que a gente nem percebe,” explica Anna Muylaert.
Com um super elenco formado por gerações e bagagens distintas, a diretora realizou diversos laboratórios e ensaios para cenas mais difíceis, como a dos personagens de Grace Gianoukas e Rafael Vitti. “Ela teve que colocar a máscara de um humor, que não é esse humor óbvio, mas foi difícil. Ainda mais porque a Grace é amiga dos pais do Rafa e tudo mais. Para incorporar aquele elemento perverso, ela viu vídeos sobre aquele serial killer Ted Bundy. Foi uma cena complexa para todos e eu queria que acabasse logo, porque suscita incômodo em qualquer pessoa.”

Anna Muylaert reitera que todas as situações de violência e de opressão praticadas pelas personagens ultrapassam a questão do gênero. Uma tendência cada vez mais evidente no cinema e em outras manifestações da arte. “Pessoalmente, eu não acredito em gênero, eu acredito em pessoas, mas a educação de gênero é um fato e um fato bem perverso porque engrandece um lado e diminui o outro. Acaba sendo perverso para os dois lados e todo mundo perde”.
Outra estrutura de poder que O Clube das Mulheres de Negócios coloca no centro do debate é a dominação do homem sobre a natureza. “Eu quis ampliar a ideia de inversão. Ela passou a ser um ponto de partida para discutir a política do patriarcado em todos os âmbitos sociais, econômicos e que estão causando, inclusive, a destruição do planeta”. Foi quando entrou a mão da tecnologia, por meio da coprodução com a Vetor Zero, para recriar as onças digitalmente, contribuindo com o clima insurgente dos oprimidos.
“A ideia foi virar o jogo e ver essas coisas que a gente está tão acostumado sob outra perspectiva”
Anna Muylaert
Trunfo da palhaçaria
A partir de uma experiência pessoal traumatizante, Rafaela Azevedo idealizou King Kong Fran, dividindo direção e dramaturgia com Pedro Brício. A produção independente ganhou os palcos há dois anos, levando mais de 100 mil pessoas aos teatros brasileiros para acompanhar a performance de uma mulher gorila que, de maneira debochada, critica o machismo estrutural. Em fevereiro de 2025, a artista já tem programada uma turnê na Europa.
A teatralidade e o circo no universo de Fran se fundem numa abordagem em que a inversão ultrapassa o entendimento de masculino e feminino. “Eu não acredito, por exemplo, que o assédio e o autoritarismo são masculinos. Eu acredito que são características humanas e que a nossa socialização permite e incentiva que homens as exerçam para ter poder sobre as mulheres e até sobre outros homens”, diz Rafaela.

Diferentemente de muitas produções em que a troca de papeis simplesmente é entretenimento, Rafaela consegue com a personagem Fran mudar as reações da plateia rapidamente, que vai dar gargalhada à sensação de embargo. Mais do que inversão, uma importante subversão.
“A minha estratégia é criar a partir da palhaça. Na palhaçaria, o que a gente usa é o humor como uma das formas de comunicação. Porque quando a gente faz esse chiste, quando a gente pega algo que é uma dor profunda e comunica de uma forma engraçada, o que eu estou quebrando é qualquer resistência do meu público em receber aquele tema pesado”, revela.