A sinuca de Macron: sufocado por direita e esquerda, pode desestabilizar a UE
Com apenas três meses no cargo, primeiro-ministro Michel Barnier foi derrubado pelo Parlamento, que tem o presidente Emmanuel Macron como alvo. A instabilidade na França ameaça a própria Europa

O primeiro-ministro Michel Barnier sofreu moção de censura mas o verdadeiro alvo do Parlamento é o presidente Macron (Crédito: Amaury Cornu/Hans Lucas/AFP)
Por Denise Mirás
Em abril de 2022, eleitores reelegeram Emmanuel Macron “com um pregador no nariz” — como dizem os franceses —, para impedir a tomada do governo pela ultra-direita. Marine le Pen saiu derrotada, mas nunca deixou de envenenar politicamente o presidente francês, que também por conta própria se enfiou em uma armadilha. Ao assumir uma postura prepotente e ainda se valer de apostas arriscadas, com cortes em benefícios sociais, conseguiu unir extrema-direita e extrema-esquerda contra si mesmo e se tornou o verdadeiro alvo da moção de censura contra o primeiro-ministro Michel Barnier, apresentada ao Parlamento na quarta-feira, 4, e aprovada por 331 votos do total de 577. Barnier caiu, mas o tiro atingiu Macron.
Com a saída de mais um primeiro-ministro (quem de fato governa o país), o presidente se vê em uma sinuca. Segunda maior economia da Europa, atrás apenas da Alemanha, também em crise, a França se fragiliza e arrasta a União Europeia nessa correnteza, que dá mais força à extrema-direita.
Ainda mais agora, como observa Ana Carolina Marson, doutora em Relações Internacionais pela USP e professora na USJT-SP, com a reeleição de Donald Trump para presidente dos EUA: o americano já deixou claro que vai cortar as verbas bilionárias que sustentam a Ucrânia na guerra com a Rússia, deixando a conta para os europeus — o que se traduz em piora no custo de vida para todos os países do continente.
“Cabe a vocês, parlamentares, decidir se o nosso país adota medidas financeiras responsáveis ou se vamos entrar em território desconhecido.”
Michel Barnier, primeiro-ministro antes da queda
Muitos dos eleitores de esquerda que apoiaram Macron à reeleição em 2022 novamente foram às urnas “com pregador no nariz” em julho deste ano, para o segundo turno das eleições parlamentares, quando conseguiram derrotar a extrema-direita, vitoriosa no primeiro, de virada.
Mas, mais uma vez, a esquerda encontrou em Macron um “traidor”, como foi chamado. Com a Assembleia Nacional dividida em três grandes blocos de parlamentares, sem um partido majoritário, a Nova Frente Popular (de esquerda, liderada pela França Insubmissa, partido de Jean-Luc Mélenchon) acreditava que Macron poderia aceitar a indicação da socialista Lucie Castets para primeira-ministra.
Marine le Pen adoraria colocar seu pupilo Jordan Bardella, mas espertamente adiou o bote, para quando não precisar mais de coalizões partidárias. Em meio a esse cenário nebuloso, Macron não negociou e impôs Michel Barnier, de centro-direita, como primeiro-ministro.

Rejeição a imposições
Houve acúmulo de decepções, com relação a Macron, que já havia passado pela crise dos “coletes amarelos” em seu primeiro mandato, com paralisação do país por meses em resposta a cortes de conquistas trabalhistas e sociais.
Neste segundo governo, os franceses foram levados à fúria com a aprovação por decreto da reforma da aposentadoria. Depois de semanas de protestos, em março de 2023 a então primeira-ministra Elisabeth Borne acionou o artigo 49.3 da Constituição para subir para 64 anos a idade dos franceses se aposentarem, medida justificada pelo risco de quebra da Previdência. A imposição, por cima do Parlamento, já não agradou ninguém, diz a professora, e agora Michel Barnier ainda foi se valer do mesmo artifício para empurrar seu orçamento da segurança social para 2025, sem votação.
Ana Carolina destaca que esse voto de não-confiança do Parlamento, que derrubou Barnier mas foi nitidamente endereçado a Macron, mostra a força da pressão de Marine le Pen sobre uma França dividida e furiosa pelo aumento de preços e queda no poder de compra. “E desde o início da guerra na Ucrânia há um peso maior sobre o orçamento do país. Manter o envio de verbas e armamentos custa muito dinheiro e vai custar mais agora, sem o dinheiro dos EUA como prometido por Trump”, observa a professora. “Essa queda do primeiro-ministro, a primeira em 60 anos, leva a França a uma instabilidade gigantesca.”
Com o governo paralisado, a Constituição francesa prevê que o primeiro-ministro peça demissão ao presidente, que tem pelo menos quatro possibilidades.
● Pode fazer como o general De Gaulle e recusar o pedido de Barnier (mas não poderá chamar novas eleições legislativas — teria de esperar um ano, depois da dissolução do Parlamento que promoveu em junho último).
● Pode também deixar o primeiro-ministro se arrastar no cargo por um tempo.
● Ou aceitar a demissão e nomear o próprio Barnier novamente.
● Por último, é possível nomear de pronto um dos já vários candidatos, para tentar aprovar o orçamento de 2025 rapidamente, até o fim deste ano.
Mas o que seus adversários querem mesmo — Marine le Pen em particular — é arrancar Emmanuel Macron da Presidência.