Comportamento

Apps de paquera, como Tinder, estão perdendo usuários; entenda por que

Crédito: N-voitkevich/Pexels

Frustrações em sequência são o principal motivo do "dating burnout" (Crédito: N-voitkevich/Pexels)

Por Luiz Cesar Pimentel

RESUMO

● Aplicativos de encontro entram em declínio causado pela exaustão de pessoas diante das frustrações cada vez maiores dos usuários
● Especialistas dizem que os apps têm de se reinventar ou morrerão

O número de usuários do maior aplicativo de encontros no Brasil, o Tinder, caiu de 8,2 milhões para 6,5 milhões nos últimos dois anos, o que significa 20% a menos. O Happn, outro popular app no País, teve uma queda global de 154 milhões de pessoas para 137 milhões, além de frustração de 70% entre os brasileiros, que se disseram surpreendidos negativamente com a aparência do crush no primeiro encontro. O Bumble é mais categórico no que se tornou um movimento com nome de batismo: 3 em cada quatro pessoas que passaram pela propriedade atrás da cara-metade dizem já ter sofrido de esgotamento de plataforma de namoro, uma condição que foi apelidada de Dating Burnout (algo como Burnout da Paquera).

Se considerar o modelo de navegação junto aos objetivos de quem acessa as plataformas, não é difícil imaginar que esse resultado aconteceria. Dentro da promessa de infinitas possibilidades, o usuário entra em fluxo de uma série de encontros e desencontros, com obvia prevalência de frustrações em sequência que pode se tornar difícil de lidar.

“A queda de pessoas pode ser explicada pela combinação de frustrações pessoais e mudanças de comportamento social. Muitos usuários têm se deparado com perfis irreais, onde as fotos são alteradas por filtros ou inteligências artificiais, criando uma expectativa que não corresponde à realidade”, arrisca a psicóloga e empresária Amanda Carvalhal. “O processo de avaliar perfis, iniciar conversas que não avançam e lidar com rejeições pode gerar um cansaço mental comparável ao burnout no trabalho.”

Natália Pugschitz, professora de ioga: “Os aplicativos tendem a promover a objetificação das pessoas, além da falta de diálogos realmente legais” (Crédito:Divulgação)

“Quando o contato evolui para encontros presenciais, a discrepância entre a fantasia criada e a pessoa real torna-se evidente. Essa transição exige habilidades sociais que nem todos possuem, resultando em interações insatisfatórias ou frustrantes”, diz Maria Klien, psicóloga especialista em medos e ansiedade. “As pessoas acabam esperando muito dos outros enquanto oferecem só pouco de si mesmas. Esse desequilíbrio gera mais desgaste emocional do que satisfação. A repetição de encontros que não atendem às expectativas alimenta o sentimento de exaustão.”

Já se sabe qual é o público mais frustrado com a dinâmica de jogo dos apps, os participantes da Geração Z, nascidos entre 1997 e 2012.

Segundo pesquisa realizada pela empresa de inteligência de mercado Savanta, 9 em cada 10 jovens da Geração Z sofreram a exaustão da paquera virtual e fugiram dos aplicativos. As principais razões descritas foram: frustração, mesmice, insegurança e superficialidade.

“Esses apps foram desenhados por millenials para millenials (nascidos entre 1981 e 1996) e navegar por uma transformação geracional tem se provado um caminho traiçoeiro. Isso porque os usuários mais jovens estão optando mais pelo cara a cara e dependendo menos dos aplicativos para encontrar novos parceiros”, disse recentemente Andrew Morok, analista do banco de investimentos Raymond James. Ele se refere às ações do Match Group, donos do Tinder, e do Bumble, que despencaram cerca de 75% e 90%, respectivamente.

Letícia Peres, advogada: “Se a pessoa for vítima de golpe, tem de procurar uma delegacia, registrar o fato e cobrar indenização” (Crédito:Divulgação)

No mundo real

Frustração foi o que marcou a aventura de Sergio, que prefere ocultar o sobrenome e o rosto, no mundo da paquera virtual. Após se divorciar, há um ano e meio, ele diz ter entrado em todos os apps possíveis, mas saiu “porque o processo acaba sendo cansativo e repetitivo. As conversas viram pequenas entrevistas, e todos que estão lá ficam meio sem paciência”.

Não sem antes fazer uma análise qualitativa dos usuários. “Existem as pessoas que só querem ‘bagunça’, sexo sem compromisso e usam o app como um cardápio – essas eu diria que são mais de 90% das pessoas. Os outros 10% ficam tentando ‘se encontrar’ e se esquivar dessa maioria, por vezes se cansam, entram e saem do app por várias vezes. Eu faço parte dessa minoria”, diz.

Já a professora de ioga Natália Pugschitz abandonou a paquera virtual por outro tipo de frustração. Ela começou a usar aplicativos junto ao desembarque do Tinder no País, em 2013, e o fez até 2017, quando começou namoro longo. “Voltei para os aplicativos em 2022 numa tentativa desesperada de conhecer alguém e percebi que não estava pronta naquele momento. Quando senti que era a hora, instalei os aplicativos e fui percebendo que não ia ser tão fácil conhecer alguém ali. Entrei e sai várias vezes e atualmente desisti de vez”, diz. “Minha maior decepção com relação aos aplicativos foi perceber a falta de vontade da outra parte em estabelecer um diálogo legal sobre gostos, curiosidades, fatos aleatórios e por aí vai.”

“Também tendem a promover a objetificação das pessoas, os transformando em itens de escolha imediata para satisfazer desejos momentâneos. Essa abordagem dificulta a formação de conexões genuínas, pois o foco recai na satisfação pessoal imediata em vez de construir relacionamentos significativos. Além disso, existe uma discrepância entre os desejos conscientes e inconscientes dos indivíduos. Mesmo que não admitam, muitos procuram ser amados e estabelecer vínculos profundos. Ao se envolverem em interações superficiais, podem trair suas necessidades emocionais, gerando insatisfação e afastamento dos aplicativos”, analisa a psicóloga Maria Klien.

Maria Klein, psicóloga: ‘A repetição de encontros que não atendem às expectativas alimenta o sentimento de exaustão” (Crédito:Divulgação)

Outro fator bastante apontado como motivo de abandono é a frustração quando a paquera evolui do virtual para o presencial. “Fui encontrar uma jovem, marcamos um cinema e, meu Deus, ela não tinha absolutamente nada a ver com as fotos. Analisando depois, tinha tanto filtro que nem sei como não percebi. Se ela ainda fosse uma pessoa agradável, mas nem isso. Ou seja, fui enganado pelo filtros”, conta e ri Sergio.

“Quando o contato evolui para encontros presenciais, a discrepância entre a fantasia criada e a pessoa real torna-se evidente. Essa transição exige habilidades sociais que nem todos possuem, resultando em interações insatisfatórias ou frustrantes. As pessoas acabam esperando muito dos outros enquanto oferecem só pouco de si mesmas. Esse desequilíbrio gera mais desgaste emocional do que satisfação. A repetição de encontros que não atendem às expectativas alimenta o sentimento de exaustão”, diz Klien.

Segurança é um fator fundamental e vem se mostrando bastante frágil nas plataformas.
● Dos 51 casos de sequestro relâmpago que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo assumiu no ano passado, 49 (96% deles) começaram por encontros marcados em aplicativos de namoro.
● Os criminosos estabelecem uma relação de confiança com a vítima pelo app até que marcam encontro presencial e agem.

“É um crime que, além de atingir a esfera patrimonial, afeta também a esfera psicológica da vítima. Então, qual é a forma da pessoa se proteger ou como que ela pode agir ao se sentir ameaçada? Ela tem que procurar uma delegacia, tem que registrar, levar o fato, existe a delegacia dos crimes digitais, as práticas digitais”, recomenda Letícia Peres, advogada especialista em direito civil.

“Os golpes têm aumentado, com histórias de pessoas que se passam por outra identidade para obter dinheiro ou vantagens emocionais, transformando o ambiente dos aplicativos em algo, por vezes, perigoso”, completa a psicóloga Amanda Carvalhal.

Nesses casos, a advogada sugere que a vítima busque seus direitos devidos. “Que cobre indenização. Quem passar por isso deve fazer o registro de ocorrência para que se busque fazer com que esse golpista se abstenha da prática do crime e a vítima pode perfeitamente, na esfera cível, pedir uma compensação”, diz.

Considerando todas as possibilidades de reversão na queda de usuários, as marcas começaram a se mexer para melhor adequação ao que o público demanda.
● A principal plataforma lançou o Tinder Date Club, que promove eventos físicos para facilitar encontros presenciais.
● Já o Happn criou a fruncionalidade Spots, para os interessados compartilharem locais favoritos também com interesse em conexões ao vivo e identificação.
● Além disso, o mercado sugere que os facilitadores de encontros irão apostar em outras novidades, como perfis mais completos, selos de intenções específicas e mais modalidades de compatibilidade nos algoritmos.

“Vejo um potencial no uso de inteligência artificial para conectar pessoas de forma mais significativa, mas sempre com o objetivo de facilitar o encontro no mundo real”, sugere a psicóloga Amanda Carvalhal.