Coluna

Conexões em tempos sombrios

Conexões em tempos sombrios

Laira Vieira: "Em uma sociedade focada no consumo e na aparência, a obra nos lembra que, sob a superfície, a busca por significado e conexão é uma luta constante"

Por Laira Vieira

No crepúsculo da decadência, onde os sonhos se esvaem e a esperança parece um eco distante, Despedida em Las Vegas (1995) surge como um retrato cru da autodestruição humana.

Dirigido por Mike Figgis (Hotel, Timecode) e baseado no romance homônimo publicado em 1990 por John O’Brien, o filme narra a jornada de Ben Sanderson, interpretado por Nicolas Cage (Presságio, 60 Segundos), um roteirista de Hollywood cuja vida se desmorona em meio ao alcoolismo. Após perder emprego e família, Ben decide ir para Las Vegas, onde se entrega ao álcool, sem planos para o futuro. Lá, ele conhece Sera, uma prostituta interpretada por Elisabeth Shue (Cocktail, O Santo), e, em meio ao caos, os dois formam uma conexão improvável.

O alcoolismo do protagonista não é apenas um vício, mas a manifestação de uma crise existencial profunda — seu vício é uma forma de automedicação. Las Vegas, com seu brilho superficial e promessas vazias, torna-se o cenário perfeito para essa decadência. Sera, por outro lado, lida com suas próprias dificuldades, mas encontra em Ben uma razão para continuar vivendo. A relação entre eles é trágica e revela a necessidade de conexão — principalmente nas piores circunstâncias.

A obra vai além de um simples estudo de personagens, explorando a condição humana e nossas batalhas internas. A autodestruição do protagonista é implacável; ele não apenas bebe, mas tenta apagar uma dor que parece insuportável. Enquanto isso, Sera representa um tipo de redenção. Sua presença na vida de Ben oferece uma faísca de esperança, mas também ilustra a complexidade das relações humanas. Ambos tentam, à sua maneira, encontrar significado em meio ao caos de suas vidas desmoronadas.

A conexão entre Ben e Sera é uma tentativa de redenção, mesmo que temporária e imperfeita. A obra sugere que, no desespero, a interação humana pode oferecer algum tipo de salvação. Como disse Albert Camus: “Quanto menos sentido tiver a vida, melhor vivida será.” Ambos os personagens exemplificam essa filosofia, buscando algo que vá
além de sua dor imediata. A desconexão e o vazio que a dupla sente são universais e atemporais.

Em uma sociedade focada no consumo e na aparência, a obra nos lembra que, sob a superfície, a busca por significado e conexão é uma luta constante.

O longa-metragem oferece desolação e resignação, mas também um reconhecimento do desejo humano de ser compreendido e acolhido. A jornada de Ben é uma profunda meditação sobre a fragilidade da condição humana, forçando o público a refletir sobre a importância da conexão e do propósito na vida.

Despedida em Las Vegas não é apenas sobre a queda, mas também sobre as pequenas chamas de esperança que ainda podem brilhar na escuridão.