Coluna

Cida(des)umana

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Pedro Franco: "A desigualdade grita, enquanto os sem-teto se acumulam em paisagens que deveriam refletir cidadania, mas escancaram abandono" (Crédito: Divulgação)

Por Pedro Franco

Residir próximo à Avenida Paulista é testemunhar, diariamente, o embate entre modernidade e desordem urbana. Por aqui, o movimento incessante de pessoas contrasta com o caos imposto por construtoras e concessionárias, que parecem competir pelo título de maior responsável pela degradação de um espaço já saturado.

No meio da madrugada, é o barulho dos marteletes que quebra o silêncio — e as calçadas. Durante o dia, os fios emaranhados formam esculturas improvisadas, resultado do trabalho desleixado de concessionárias apressadas em terminar o serviço. À noite, os apagões tornam a escuridão ainda mais sufocante, enquanto buscamos, em vão, alguma sensação de normalidade.

A falta de planejamento nos empurra para um crescimento urbano voraz, sem controle e sem compromisso. A privatização de serviços públicos, desregulada e gananciosa, age como um catalisador dessa anarquia.

Até os deslocamentos curtos se tornam o reflexo de um cenário absurdo. Meu trajeto de apenas oito quarteirões até o trabalho é uma odisseia diária. Na Rua Haddock Lobo, calçadas bloqueadas e faixas de pedestres inacessíveis forçam pedestres e veículos a dividir espaços já apertados. É um convite constante ao acidente, embalado pelo descaso.

E o que dizer do novo horizonte da cidade? Mais prédios, mais altura, mais pessoas. Mas, afinal, a que preço? Nos últimos dez anos, o espaço público foi devorado pela especulação imobiliária. Alterações no Plano Diretor de 2019 permitiram que edifícios avançassem até os limites dos lotes, apagando a fronteira entre o privado e o coletivo.

A transferência de potencial construtivo, vendida como solução, apenas intensifica a desordem. A promessa de criar habitações acessíveis próximas ao transporte público é uma falácia. Os imóveis “populares” seguem financeiramente inalcançáveis para a maioria, enquanto aqueles que deveriam se beneficiar dessa política permanecem confinados às periferias, ou pior, às ruas do centro, onde se multiplicam barracas e filas no metrô.

A desigualdade grita, enquanto os sem-teto se acumulam em paisagens que deveriam refletir cidadania, mas escancaram abandono.

São Paulo, uma cidade que deveria ser modelo de inclusão e democracia, abraça o contrário: a desumanização. Planejamento virou palavra proibida. Infraestrutura adequada, um sonho distante. Em vez de uma metrópole acolhedora, estamos construindo um monumento à desigualdade, ao descaso e à ganância.

Se não reagirmos, a cidade, que já flerta com o colapso, será reduzida a uma caricatura cruel de suas próprias contradições. Uma reflexão urgente se impõe: até quando aceitaremos trocar o direito à cidade por espigões vazios e promessas ocas? São Paulo está cada vez mais (des)umana. E o futuro, ao que parece, já é presente.