A utopia de Pepe Mujica é narrada em documentário de ‘artesão’
'Os Sonhos de Pepe' ultrapassa o ideal político do ex-presidente do Uruguai, conhecido pelo mandato que priorizou a justiça social e também pelo estilo de vida simples. O longa acompanha viagens de Mujica pelo mundo, com suas ideias e anseios

Em seu mandato presidencial, Pepe Mujica tornou-se uma liderança relevante não apenas na América Latina como ganhou o mundo (Crédito: Divulgação)
Por Ludmila Azevedo
Aos 89 anos, José Pepe Mujica é uma das lideranças mais admiradas da América Latina. Ex-presidente do Uruguai (2010 a 2015) elegeu-se senador em 2019. No ano seguinte e diante da pandemia da Covid-19, Mujica renunciou ao cargo e se afastou da política. Ele também tem sua biografia moldada pela luta democrática e contra a ditadura militar em seu País. Ex-líder do movimento Tupamaros, na década de 1960, foi preso anos depois. Um episódio que foi brilhantemente contado no longa-metragem Uma Noite de 12 Anos (2018), dirigido por Álvaro Brechner. Em Os Sonhos de Pepe, que acaba de chegar aos cinemas, o documentarista Pablo Trobo não deixa de abordar, em 90 minutos, o ideal político deste personagem singular. Mas o que mais interessa ao diretor é colocar o espectador a bordo de O Trenzinho Caipira, de Heitor Villa-Lobos, numa viagem pelos quatro cantos do mundo para falar sobre temas como humanidade, cooperação e meio ambiente. Defesas que sempre estiveram não só nas entrelinhas do discurso oficial do ex-presidente uruguaio, mas que são sua própria vida na prática.
“Havia muitas formas de abordar um documentário sobre o Mujica. Mas eu entendi que a utopia de Pepe, que sonha em ter um mundo mais justo e mais solidário, era o tema principal. Porque, em definitivo, esta é a luta, a revolução mais importante que ele fez”, explica Trobo.

As câmeras flagram encontros com figuras notáveis, como Barack Obama, então presidente dos Estados Unidos, conferências na ONU, na Inglaterra — em que há uma passagem divertida na qual Pepe se autoproclama um antimonarquista e anticolonialista, valores fortes no Reino Unido —, na Alemanha e no Japão onde, ao lado da esposa, ex-senadora e também ex-guerrilheira, Lucía Topolansky, é recebido com muito entusiasmo.
Como a maior parte dos registros faz parte de sua vida política, há que se destacar que as defesas de Pepe Mujica há dez anos soam como se fossem ditas ontem. No encontro com Obama, em 2014, o Uruguai já se notabilizava por avançar em políticas públicas, como a legalização da maconha — foi pioneiro a regulamentar o cultivo, a venda e o consumo da planta. Pepe faz questão de frisar que não fuma, entretanto que sua decisão era combater a indústria do tabaco e o narcotráfico.
“O mais importante não é triunfar na vida, é caminhar, seguir em frente. Levantar-se quando cai e ter coragem para recomeçar”
José Pepe Mujica
Como camponês, ressalta a importância de ouvir os anseios da terra dividindo com todas as lideranças suas impressões. “Ele já começava a olhar as consequências das mudanças climáticas”, completa Pablo Trobo.
No Japão, Mujica exaltou aquela cultura milenar, que respeita os ciclos da natureza. Quando flagra o encantamento de seu personagem com flores, animais e olhares da juventude, o diretor revela bastante sobre o homem que não se sentia à vontade com protocolos e formalismos, tão pouco com o luxo destinado aos chefes de Estado.

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“Pepe me brindou com momentos que não vou esquecer. Alguns não estão no filme porque, às vezes, você tem que desligar a câmera e viver. Então, foi uma experiência muito interessante. Foi uma aventura ter conhecido o Pepe e poder ter esse acesso facilitado a lugares incríveis”, conta o diretor, que desde a campanha presidencial acompanhou Mujica.
Àquela altura, ninguém imaginava que parte do material seria a base de documentário. Sobre que o aspirante a presidente do Uruguai versava era, na percepção de Trobo, mais relevante que a eleição.
Apesar da vitória, uma de suas mensagens centrais é sobre perseverar. “O mais importante não é triunfar na vida, é caminhar, seguir em frente. Levantar-se quando cai e ter coragem para recomeçar”, diz Pepe numa passagem do documentário. Ele, que foi privado da leitura nos anos em que esteve na prisão de Punta Carretas, narra que aprendeu a ouvir o som das formigas. Trobo usa essa passagem visualmente, como uma licença poética.
“Eu levei muito tempo para realizar o documentário. Fazia edições ao longo de 15 anos, muitas delas entraram no filme. A estética, o caminho que eu escolhi não são comuns para um documentário. Primeiro, porque Mujica não é uma pessoa convencional e também porque eu queria colocar a minha visão artística no filme. Eu queria expressar o que eu aprendi durante todo esse tempo e estou muito orgulhoso e contente com o resultado. Não é um documentário feito por algoritmos, é um documentário de artesão.”
Diante do que Pepe Mujica elenca como as verdadeiras prioridades para a vida, torna-se impossível não se lembrar de outra personalidade do Uruguai, o escritor Eduardo Galeano, e abraçar suas palavras: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”