Entenda o drama do Rio, uma cidade entre o tráfico e a milícia
Ataques coordenados no Rio de Janeiro prejudicam a vida de milhões de pessoas e revelam que o carioca está numa encruzilhada, vítima do que há de pior na criminalidade brasileira

A polícia suspeita de que os ônibus incendiados serviram também a outro propósito: facilitar a fuga do líder miliciano Zinho, que estava na área (Crédito: Reprodução tv/Globo; redes sociais)
Por Luiz Cesar Pimentel
A milícia carioca mostrou seu poder destrutivo na semana em que detonou uma das maiores ações já realizadas por um grupo criminoso na história do Rio de Janeiro:
• incendiou 35 ônibus,
• tacou fogo em um trem,
• interrompeu parte do trânsito com caminhões,
• sitiou sete bairros,
• e prejudicou cerca de um milhão de cidadãos.
Em outras palavras, transformou a Cidade Maravilhosa em um cenário de horror. Ações que podem ser facilmente classificadas como terrorismo aconteceram em retaliação à morte do número 2 na hierarquia do maior grupo paramilitar da capital, Matheus da Silva Resende, sobrinho do líder que batiza a facção, a Bonde do Zinho.
Foi um recado para o poder público sobre o potencial destrutivo do bando mafioso que domina mais de metade da área da cidade, tornando praticamente reféns cerca de dois milhões de pessoas.
Prefeitura, Estado e Governo Federal se uniram para dar uma resposta à altura, mas cada um propôs uma solução diferente, sem chegarem a um consenso.
Enquanto isso, a violência cresce e deixa apenas 25% da capital livre do jugo de alguma facção ou da milícia. O governo carioca e sua polícia, portanto, são responsáveis apenas pela área que corresponde a um quarto da cidade.


O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, sugeriu ao presidente Lula a atuação das Forças Armadas, o que deve acontecer com a presença da Marinha, nos portos, e da Aeronáutica, em aeroportos.
De acordo com o plano, foram destacados 300 agentes da Força Nacional e 270 policiais rodoviários federais. Dino enviou para o Estado:
• seu secretário-executivo, Ricardo Cappelli,
• o secretário nacional de Segurança Pública, Tadeu Alencar,
• e o comandante da Força Nacional, Fernando Alencar de Medeiros.
Após reunião com o governador Claudio Castro, Cappelli anunciou a criação de um grupo para investigar a lavagem de dinheiro e “asfixiar financeiramente as organizações criminosas para reduzir seu potencial ofensivo”.
Já Castro divulgou uma lista de caça que inclui quem ele considera os três maiores inimigos públicos: Zinho (Luis Antonio da Silva Braga), Tandera (Danilo Dias Lima) e Abelha (Wilson Quintanilha).
Por pressão da Alerj (Assembléia Legislativa), colocou no comando da polícia Marcus Vinicius Amim, um delegado mais conhecido como influenciador digital e comentarista de TV. O quarto a ocupar o posto nos últimos três anos foi indicação de um deputado com vínculo à milícia, Marcio Canella (União).
“Vamos seguir o nosso planejamento. Ampliação do trabalho de inteligência da PF é o foco, mas também estamos ampliando a presença ostensiva da PRF e da Força Nacional”, disse Cappeli à ISTOÉ.
“Aumentamos o efetivo com um grupo comandado pela secretaria nacional de Segurança Pública que investigará as conexões entre facções do Rio e de outros estados”, afirma Flávio Dino. Ele descartou intervenção federal, mas o caso reforçou opiniões favoráveis à divisão de seu ministério entre Justiça e Segurança Pública.
O tema de violência é responsabilidade da Polícia Civil desde que o ex-governador Wilson Witzel extinguiu a Secretaria de Segurança Pública (SSP), em 2019.
A ocasião já apresentava uma escalada fora da lei que fez com que o então presidente, Michel Temer, no ano anterior, nomeasse como interventor no Rio o general Walter Braga Netto, vice de Jair Bolsonaro em 2022.
A instabilidade política que culminou nas prisões dos ex-governadores Sérgio Cabral, em 2016, e Luiz Fernando Pezão, dois anos depois, inflamaram o cenário de atrasos de repasses e salários para forças de segurança.
Com a extinção da SSP, as forças policiais não precisavam seguir políticas de Estado e passaram a agir por conta própria. O cenário propiciou a explosão dos grupos milicianos, com a diferença de que, nesse caso, eles passaram a se infiltrar em todas as esferas de poder.
Sem controle
“A extinção da secretaria foi decisiva, já que eliminou instituição de coordenação das polícias e a questão dos controles civil e político. Favorece a lógica de expansão dos grupos, já que podem se desenvolver livremente dentro das forças de segurança e não há devido controle da atividade policial”, afirma Daniel Hirata, sociólogo que chefia o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI/UFF).
Sobre as propostas de contenção da violência, Hirata sugere um planejamento baseado em inteligênia e dados. “É preciso trabalhar de forma regulatória e não somente repressiva, investigar vínculos entre grupos criminosos e políticos, para que aqueles que deveriam enfrentar a criminalidade não sejam cooptados por ela. A atuação somente repressora traz resultados pífios sobre o desmantelamento das redes criminais.”
Os números comprovam a teoria. Entre 2017 e 2021, as milícias dobraram o tamanho da área que ocupam na cidade. O mais recente estudo do Geni (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos) e do instituto Fogo Cruzado aponta que milicianos controlam 57,5% da superfície territorial carioca (25% dos bairros), enquanto as facções dominam 15,5%, em um total de 73% sob o crime.
A briga pelo restante da capital é cada vez mais acirrada. Só nesse ano, o número de tiroteios aumentou 55% na zona Oeste, região de supremacia miliciana.
A quantidade de chacinas saltou de 4 para 14, o que representa um aumento de 250%. Não é coincidência que as dez áreas cariocas mais perigosas estejam ali:
• Bangu,
• Gericinó,
• Padre Miguel,
• Senador Camará,
• Anil,
• Cidade de Deus,
• Curicica,
• Gardênia Azul,
• Jacarepaguá,
• Taquara.
“Quando a cidade avançou para a zona Oeste, as milícias já estavam posicionadas”, diz Hirata.
O extremo Oeste carioca é um local bem diferente do Rio de Janeiro conhecido pelos cartões postais. Bairros como Santa Cruz e Campo Grande, amplamente afetados pelos atos de terror da semana, estão a cerca de 50 quilômetros de distância do centro.
Na região moram 2,6 milhões de pessoas e a dificuldade de acesso foi o fator propulsor para o surgimento das milícias. Elas nasceram em conjuntos habitacionais em que o governo concedia moradia a agentes de segurança. Estes criaram os primeiros grupos sob a justificativa de promover segurança contra os traficantes — e começaram a vender esse serviço.
Nos anos 2000, ofereceram vans que viajam às regiões centrais, o tal transporte alternativo, serviços de gás, água, luz, TV a cabo e até opções no mercado imobiliário.
O Rio passou a ser dividido entre facções de traficantes e grupos paramilitares.
Até que em 2014, com a prisão do último dos cinco comandantes da milícia surgida a partir das forças policiais, a liderança do grupo foi para o ex-traficante Carlinhos Três Pontes.
Os negócios expandiram-se também para o comércio de drogas, modalidade que ganhou o nome de “narcomilícia”. A partir daí, as atividades dos grupos se confundiram. A maior prova disso é que o pivô do caos mais recente era importante para o grupo paramilitar não apenas pela linha sucessória — seu tio, Zinho, é o terceiro dos irmãos Braga no comando —, mas por ser o elo de negociação entre traficantes e milicianos.

A execução por engano de três médicos na Barra da Tijuca, no início de outubro, ilustra como a linha que separava traficantes e paramilitares desapareceu. O ex-miliciano e então Comando Vermelho Philip Motta Pereira, o Lesk, matou as vítimas após confundir um dos homens com um paramilitar recém-libertado.
O líder da facção Wilton Quintanilha, o Abelha, ordenou a morte dos assassinos. O poder paralelo, assim, legisla, julga e executa. “Não existe nenhum benefício para a população carioca, principalmente aos mais pobres, na milícia. O segundo fator a ser considerado é a questão do policiamento regular e legalista em todas as regiões do Estado. A política ostensiva deve ter a mesma presença não importando o perfil social da localidade. Por fim, a investigação e a punição dos envolvidos com os grupos paramilitares. O papel das polícias Civil e Federal é central nesse processo. No entanto, sem as duas primeiras medidas, a terceira tende a ser inócua”, diz o cientista político Emmanuel Nunes.
O Rio de Janeiro possui uma única delegacia especializada em crime organizado, a Draco (Delegacia de Repressão as Ações Criminosas Organizadas), com efetivo de 40 policiais.