Ditaduras reveladas: cineastas revisitam anos de chumbo da América do Sul
Novas produções sul-americanas narram, por meio da ficção, como era o pesado cotidiano das sociedades sob os regimes militares no continente. Ao mostrarem o arbítrio dos tiranos, valorizam a democracia e jogam luz sobre o tema para as novas gerações

Cena de '1976', sobre a ditadura chilena (Crédito: Divulgação)
Por Felipe Machado
Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, a presença de jovens em manifestações que pediam a volta do regime militar causava uma certa estranheza. Afinal, não apenas no Brasil, como em toda a América do Sul, o movimento estudantil foi um dos principais núcleos de resistência ao autoritarismo que torturava e matava quem ousava se levantar contra ele. A verdade é que muitos que passaram a elogiar ditaduras o faziam sem noção exata do que se passou, baseados geralmente em desinformação espalhada pelas redes sociais. Uma leva de filmes sobre os regimes militares que dominaram a América do Sul na segunda metade do século 20 conta com exatidão a história desse período.
Ao exibirem ficções de época, as plataformas de streaming se tornaram veículos perfeitos para iluminar o que realmente aconteceu naqueles sombrios tempos de arbítrio.
Chile silenciado
O filme mais recente é 1976, longa que acaba de estrear na Netflix sobre a ditadura chilena. Estrelado por Aline Küppenheim e baseado em fatos reais, o filme dirigido por Manuela Martelli conta a história de Carmen, mulher rica que ajuda um jovem ferido, integrante de um grupo que se rebela contra o ditador Augusto Pinochet.
O roteiro sensível é uma boa prova de que expor a crueldade dos regimes não gera um filme necessariamente violento. Não há aqui armas pesadas ou tiroteios, mas algo que talvez seja ainda pior: o silêncio e a apatia da alta sociedade chilena diante de um governo que assassinava sumariamente seus próprios cidadãos.
A personagem Carmen se choca ao perceber que sua própria família, preocupada em manter o status quo, prefere fechar os olhos quando se depara com os assassinatos a mando de Pinochet.

Argentina sob revisão
Formato semelhante já havia sido utilizado em Argentina, 1985, produção dirigida por Santiago Mitre que concorreu ao Oscar de Filme Estrangeiro no início do ano.
O longa detalha o trabalho da comissão criada pelo presidente Raúl Alfonsín, em 1983, para julgar a ditadura. Cerca de 30 mil pessoas foram mortas no país, incluindo acusados que eram jogados de aviões em alto-mar — os chamados “voos da morte”.
Em vez de tiros e perseguições, porém, as armas para revelar a selvageria contra a população são os argumentos contundentes do promotor Julio Strassera, interpretado com maestria por Ricardo Darín.
Brasil: revolução na Amazônia
Ao contrário da Argentina, a promulgação da Lei da Anistia, em 1979, com o princípio da reciprocidade, impediu que o Brasil julgasse os crimes ocorridos no período. Mas os cineastas nacionais também têm apresentado suas visões.
O mais recente a chegar às telas é O Pastor e o Guerrilheiro, de José Eduardo Belmonte. Em cartaz nos cinemas, o longa tem como base uma história real registrada no livro Araguaia: Relatos de um Guerrilheiro, de Glênio Sá.
A trama se passa em 1968, quando um universitário ingressa no movimento que pretendia promover uma revolução socialista a partir da Amazônia.
Após ser preso e torturado, ele conhece um pastor também aprisionado por ter sido confundido com um líder comunista. Tem início aí uma relação de companheirismo, que une a dupla para enfrentar os horrores da prisão.

O Brasil tem um bom histórico de filmes sobre a ditadura militar. Além de documentários e produções que focam mais no confronto armado, como Marighella e Lamarca, principais líderes revolucionários da época, há uma série de produções que remetem mais ao caos emocional que ao arbítrio que causou ao País.
Em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, do diretor Cao Hamburger, um garoto relata o exílio dos familiares de esquerda; na série Magnífica 70, um censor é alojado para trabalhar em uma produtora de filmes pornográficos e se apaixona por uma atriz.
A abordagem mais leve, porém, não torna o tema mais palatável. Os filmes já vistos e os recentes são essenciais para mostrar às novas gerações que não há dúvidas: os ditadores e os seus aliados são vilões de verdade.
