A onda do retrofit
Cada vez mais presente nos centros urbanos das grandes cidades, revitalização de prédios ociosos e subutilizados ganha força, aliada à sustentabilidade e à arte

Herança modernista: de 1940, o residencial Jacques Pilon venceu o Prêmio Master Imobiliário 2020 na categoria Retrofit (Crédito: Divulgação)
Por Ana Mosquera
Quase nada é tão obsoleto que não possa ser renovado. “O mundo está em constante transformação e não precisamos jogar tudo fora, mas fazer adaptações pertinentes à vida contemporânea”, diz Marcelo Falcão, arquiteto e sócio da incorporadora regenerativa Somauma. A prática tem como objetivo restaurar prédios ociosos, preservando a arquitetura original, sem deixar de fazer as alterações necessárias ao contexto atual.
No Brasil, algumas obras emblemáticas são: Hotel Fasano, em Salvador, Edifício Galeria, no Rio de Janeiro, e Farol Santander, Pinacoteca, SESC Pompeia e Cidade Matarazzo, todos em São Paulo.
Na maior cidade da América Latina, inclusive, uma lei municipal prevê incentivos fiscais para a revitalização de edifícios do Centro para habitação. Ainda que o apoio público exista e seja primordial na reconstrução da paisagem urbana, muitas vezes resta à iniciativa privada se embrenhar no universo da reutilização adaptativa.

“É uma questão para a qual temos que nos preparar, porque muitas cidades estão olhando para isso. E não é só uma questão de preservar um prédio ou um patrimônio histórico, mas construções recentes também”, lembra o arquiteto Marcos Gavião, responsável pelo projeto do edifício Jacques Pilon, na região central da capital paulista.
Em Chicago, Los Angeles, Nova York e São Francisco, por exemplo, muitos prédios de escritórios modernos seguem “funcionando” com uma média de 50% de ocupação, comparado ao período anterior à pandemia.
As cidades, por outro lado, não esvaziaram na mesma medida, e é preciso tomar os espaços ociosos para atender às demandas da própria sociedade. “A solução não é encher os escritórios de novo. As cidades precisam se ‘retrofitar’ como um todo”, comenta Gavião.

Arte sustentável
A sustentabilidade e o bem-estar estão na alma do modelo de negócio. No Jacques Pilon, o telhado da cobertura deu lugar ao solarium com vista para a cidade, enquanto no RBS 700, nos Campos Elíseos, a quadra poliesportiva foi trocada por árvores da Mata Atlântica.
Além do resgate das estruturas e da história dos lugares, faz parte desse tipo de projeto recuperar pequenos respiros em meio ao caos das metrópoles: são verdadeiros “pulmões” fora de casa e do ambiente de trabalho, como exemplificou Gavião. Além do mais, grande parte dos moradores dos edifícios que vêm renascendo nos bairros centrais das grandes cidades tem entre 29 e 40 anos.
Para quem busca o acesso à diversidade e à pluralidade típicas das regiões, a oferta de áreas comuns versáteis é mais atrativa (e menos onerosa) que as tradicionais piscinas, academias e salões de jogos.

“Quando a gente fala em comportamento de consumo, as pessoas estão muito mais preocupadas com o que comem e vestem. Nossa grande provocação é que elas se preocupem também com onde moram“, diz Falcão.
Em meio a elevadores antigos e desenhos originais em papel manteiga, a arte e o entretenimento aparecem como ferramentas para repensar os locais subutilizados.
Antes de colocar as mãos na obra, o showroom dos futuros apartamentos do Edifício Virgínia, que será “retrofitado” pela Somauma no centro da capital paulista, deu-se por meio de ocupações artísticas, chegando a receber 3 mil pessoas em um só dia. “Todos os grandes centros foram transformados e impulsionados pelos criativos, e é nisso que acreditamos”, complementa Marcelo Falcão.
Novo e permanente
A história de ressignificar o espaço urbano vai ao encontro da ideia de que é preciso melhorar outras estruturas, para que o novo projeto seja englobado de forma harmoniosa pelo território e abrace as necessidades do entorno. “Conectamos as ruas por dentro do prédio. Como tem um declive entre uma rua e outra, criamos uma escada- arquibancada, um anfiteatro que pode receber shows, palestras. As pessoas podem se apropriar desses espaços público-privados”, explica Falcão.
Projetado em 1951 por José Augusto Bellucci, o térreo do residencial modernista esteve ocupado, antes da incorporação, por uma loja de motos.
“Perpetuar é a saída para que as coisas não se deteriorem. É uma solução inteligente e sustentável”, diz Gavião.
Apesar do romantismo que envolve o renascimento de um prédio “abandonado”, nem sempre é possível alçar voos altos. Se nem tudo pode ou precisa ser aproveitado na mudança, a própria obra pode sinalizar aos ocupantes a simbólica convivência entre o velho e o novo.
“Se precisar tirar uma parte do chão de taco, fazemos um complemento com outro material, justamente para o morador diferenciar o novo do existente. A mesma coisa com as paredes. Há as que ficam descascadas e as novas, que vão ter outro formato”, fala Falcão.
Antes, fachada atual (acima), e depois, o projeto do Virgínia (abaixo) (Divulgação)
Às vezes é preciso demolir para reconstruir, atendendo não só às necessidades do cotidiano atual, mas aos critérios de acessibilidade física.
Um exemplo é o processo de conversão de prédios comerciais em residenciais, dificultado por fatores como a profundidade dos cômodos e a baixa incidência de raios solares. Em edifícios mais baixos, entretanto, abrir um vão central pode trazer a luz que o novo momento precisa.
“Assim, você tem tanto as janelas que já davam para a rua, como os novos pátios internos para a iluminação das residências. Aí é preciso inventar programas para ocupar essas áreas comuns. Pode ter um coworking usando esse miolo, e pessoas morando e trabalhando no mesmo prédio. Acho que vamos ver muitas invenções para resolver esse conflito”, projeta Gavião.
Por aí, inclusive, grandes obras públicas e privadas já mudaram drasticamente de funções com a revitalização: uma histórica agência de correios de Houston virou um centro cultural, uma fábrica de aço de Xangai se transformou em uma academia de arte e um prédio da Pirelli, projetado por Marcel Breuer, da escola Bauhaus, agora recebe hóspedes em um hotel sustentável, em New Haven.
Marcelo Falcão e obra de arte (Crédito: André Lessa)